China: A vida do outro lado do mundo

Por Társila Lemos Borges, professora na Hippo Business,

O ano de 2017 marca minha comemoração de 10 anos de China. Amigos e familiares não se cansam de me perguntar o que me fez escolher o país asiático como destino e escola da vida adulta. A resposta completa seria muito longa, mas a curta seria assim: A língua chinesa me trouxe à China, a cultura me manteve aqui e a poluição talvez me faça partir um dia.

Aqui cheguei ainda muito jovem. Tudo o que tinha era uma bolsa de estudos do governo chinês para estudar mandarim e cerca de 500 dólares poupados em minha vida de estudante. Coragem também tinha. Não falava mandarim, mas dominava o inglês e foi com ele que me virei enquanto engatinhava no curso local. As dificuldades no primeiro dia da viagem – desde a perda da conexão no aeroporto em Toronto até conseguir identificar o nome da cidade em ideogramas na rodoviária de Pequim – já comprovavam os desafios que vinham pela frente.

Mas eu tinha vindo para aprender e não iria desistir. Antes mesmo do término da bolsa de estudos, decidi me inscrever no Programa Leitorado, com professores de português pelo mundo, oferecido pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Havia uma vaga na Universidade de Pequim, a melhor do país. A vaga me foi concedida e um sentimento de tranquilidade me invadiu. Teria, a partir de então, um contrato que me permitiria ficar mais tempo na China e aprender a língua de fato. Afinal, não se aprende mandarim em um ano.

Anos se passaram e a primeira turma da Universidade de Pequim se graduava em língua portuguesa. Eram meus alunos! Muitos dos quais trabalham hoje ao meu lado como professores e tradutores. A parceria entre falantes nativos de português e mandarim resulta em cursos de alto nível e traduções quase que impecáveis. Depois de cinco anos trabalhando como professora de língua portuguesa, recebi uma nova proposta de trabalho. O departamento de português da Agência de Notícias Xinhua procurava tradutores. Ali estive durante dois anos.

Com todas essas experiências, na vida profissional aprendi a traduzir e editar, aprendi sobre o conceito de jornalismo chinês. Na vida social, elevei meu nível do idioma espanhol ao avançado e hoje a considero a língua que melhor falo. Quando aqui cheguei, falava muito pouco francês. Hoje, me comunico sem mais problemas. A língua inglesa me é útil diariamente entre amigos estrangeiros que não falam outra língua em comum. O mandarim está presente na vida diária, seja ela social ou profissional.

Após todos esses anos, era hora de um novo desafio. Em 2013, a Embaixada do Brasil em Pequim buscava tradutores para os setores Cultural e Educacional. Fui aprovada no processo seletivo e ali aprendi a traduzir em campo, a negociar condições com os chineses, organizar eventos de promoção cultural, manter o diálogo entre estudantes brasileiros e universidades chinesas. O tempo em que estive trabalhando nessas frentes como tradutora me ensinou que meu lugar de trabalho não era limitado ao escritório de tradução ou à sala de aula, ainda que essa última seja minha grande paixão. Eu já havia me transformado em intérprete. Intérprete de português-mandarim que se aprimorou durante a Copa do Mundo e Olimpíadas no Brasil.

Hoje, moro em Pequim. Sou professora universitária e coordenadora do Núcleo da Cultura Brasileira da Universidade de Pequim. Sou professora de inglês da Hippo Business Language Consulting. Sou intérprete de português-inglês-mandarim da Embaixada do Brasil na China em situações de visitas oficiais de presidentes e ministros.

A China não é um país óbvio em um primeiro momento. Hoje, após dez anos vivendo aqui, talvez, eu passe pelos mesmo desafios, mas já não os vejo como dificuldades. Daquela menina que chegou aqui, permanecem em mim a coragem e a vontade de continuar aprendendo.

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